sábado, 11 de setembro de 2010

NENHUM REI É COMO DEUS

Quando um súdito comparece perante o seu rei, é natural que o saúde dizendo: "Que o rei viva para sempre." Uma vez, porém, houve um nobre que, cada vez que vinha a corte, dizia: "Nenhum rei é como Deus." Tantas vezes repetiu esta saudação que o rei ficou enfurecido e conspirou para o destruir. Ofereceu ao homem dois anéis de prata, dizendo-lhe que se tratava de um presente a ser bem guardado, mas na realidade o rei pretendia vingar-se através deles. O homem a quem todos hoje chamam de Nenhum-Rei-Como -Deus, aceitou os anéis e colocou-os dentro de um chifre de carneiro seco e vazio, que deu à mulher para guardar. Uma semana mais tarde, o rei chamou Nenhum-Rei-Como -Deus e enviou-o a uma aldeia distante, para dizer à população que viesse ajudar a construir as muralhas da cidade. Mal o nobre partiu, o rei enviou emissários à mulher, oferecendo-lhe um milhão de cauris (pequenas conchas importadas, usadas como moeda ou como ornamento) e cem vestidos e ornamentos de cabeça, caso ela lhe entregasse aquilo que seu marido lhe confiara. Tentada pelo esplendor dos presentes, a mulher entregou o chifre de carneiro, e quando o rei o abriu viu lá dentro, em segurança, os dois anéis de prata.

Mandou os criados atirá-lo para um lago profundo, que nunca secava. Estes assim o fizeram, mas mal o chifre tocou na água, apareceu um grande peixe que o engoliu. No dia que Nenhum-Rei-Como -Deus regressava a casa, cruzou-se com uns amigos que iam pescar e, tendo ido com eles, acabou por pescar o grande peixe. O filho, enquanto o limpava, bateu com a faca em qualquer coisa dura e chamou o pai para ver. Este retirou o chifre, e quando o abriu viu no interior os anéis de prata que o rei lhe dera para guardar. "Em boa verdade -- disse -- nenhum rei é como Deus!" Ainda estavam a tomar banho quando chegou um mensageiro real convocando o nobre à presença do rei com urgência. O homem perguntou à mulher onde estava o objeto precioso que o rei pusera à sua guarda, ao que ela respondeu que não o conseguia encontrar e que pensava ter sido comido por um rato.

O homem mesmo assim, pôs-se a caminho da corte real. Os outros conselheiros saudaram o rei da forma habitual, dizendo: "Que o rei viva eternamente." Mais o homem mais uma vez disse:"Nenhum rei é como Deus". O rei mandou calar os conselheiros e, avançando para o homem, perguntou: "É verdade que não há nenhum rei como Deus?" O nobre respondeu com firmeza: "É verdade". Então o rei pediu-lhe aquilo que lhe confiara, enquanto os guardas, prevenidos, o cercaram prontos a matá-lo. Mas Nenhum-Rei-Como -Deus, metendo as mãos debaixo do vestido, retirou o chifre e entregou-o ao rei. Este abriu-o e retirou os dois anéis de prata. "Na realidade, não há nenhum rei como Deus", disse, e todos os conselheiros manifestaram a sua aprovação. O rei dividiu então a cidade ao meio, dando metade para Nenhum-Rei-Como -Deus governar.

(Este provérbio: Nenhum rei é como Deus é um dos mais populares na áfrica Ocidental. Pretende demonstrar que Deus é o Ser Supremo, perante o qual todos os homens, sem exceção, devem se curvar. A origem do provérbio é atribuída a história nigeriana da etnia Haúça, registrada acima conforme foi coletada por Parrinder em África)



http://www.emack.com.br/sao/webquest/sp/2004/africa/processo.htm- Acessado em 18/05/2008.

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