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sexta-feira, 16 de julho de 2010
A princesa e a ervilha
Hans Christian Andersen
Havia uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas não se contentava com uma princesa que não fosse de verdade. De modo que se dedicou a procurá-la no mundo inteiro, ainda que inutilmente, pois todas que via apresentavam algum defeito.
Princesas havia muitas, porém não podia ter certeza, já que sempre havia nelas algo que não estava bem. Assim, regressou ao seu reino cheio de sentimento, pois desejava muito uma princesa verdadeira!
Certa noite caiu uma tempestade horrível. Trovejava e chovia a cântaros. De repente, bateram à porta do castelo, e o rei foi pessoalmente abrir.
No umbral havia uma princesa. Mas, Santo Céu, como havia ficado com o tempo e a chuva! A água escorria por seu cabelo e roupas, seu sapato estava desmanchando. Apesar disso, ela insistia que era uma princesa real e verdadeira. "Bom, isso vai saber logo", pensou a rainha velha.
E, sem dizer uma palavra, foi ao quarto, tirou toda a roupa de cama e colocou uma ervilha no estrado, em seguida colocou vinte colchões sobre a ervilha, e sobre eles vinte almofadas feitas com as plumas mais suaves que se pode imaginar.
Ali teria que dormir toda a noite a princesa.
Na manhã seguinte, perguntaram-lhe como tinha dormido.
-Oh, terrivelmente mal! - disse a princesa. Não consegui fechar os olhos toda a noite. Vá se saber o que havia nessa cama! Encostei-me em algo tão duro que amanheci cheia de dores. Foi horrível!
Ouvindo isso, todos compreenderam que se tratava de uma verdadeira princesa, já que havia sentido a ervilha através dos vinte colchões e vinte almofadões. Só uma princesa podia ter uma pele tão delicada.
E assim o príncipe casou com ela, seguro que sua era uma princesa completa. A ervilha foi enviada a um museu onde pode ser vista, a não ser que alguém a tenha roubado.
João Jiló
HÁ MUITO TEMPO, NUMA FAZENDA NÃO MUITO LONGE DAQUI, MORAVA UM MENINO CHAMADO JOÃO JILÓ. ELE ERA MUITO LEVADO, MALCRIADO E TEIMOSO. GOSTAVA DE FAZER MALDADES COM OS ANIMAIS, UM DIA, ELE ACORDOU E DISSE À SUA MÃE:
_ MÃE, HOJE EU ACORDEI COM UMA VONTADE GRANDE DE CAÇAR PASSARINHO, EU VOU SAIR E SÓ VOLTO QUANDO CONSEGUIR PEGAR UM BEM BONITO, GORDINHO E QUE DÊ PARA FAZER UM ENSOPADO BEM GOSTOSO, VIU?
A MÃE DE JÃO JILÓ LHE PEDIU:
_ MAS, MEU FILHO, EU JÁ CANSEI DE LHE FALAR QUE NÃO SE DEVE CAÇAR PASSARINHO! OLHE, A NATUREZA É MUITO BOA, MAS, QUANDO NÓS A MALTRATAMOS, ELA NOS CASTIGA. CUIDADO, JOÃO. FIQUE AQUI. DEIXE DE SER TEIMOSO!
MAS JOÃO JÁ ESTAVA RESOLVIDO. PEGOU SEU BODOQUE E SAIU CALADINHO. QUANDO CHEGOU A FLORESTA, LOGO ELE VIU UM PASSARINHO ESTRANHO. MUITO DIFERENTE MESMO. UM POUCO MAIOR QUE OS OUTROS PASSARINHOS E TODO COLORIDO. JOÃO PENSOU ALTO:
"QUE SORTE EU TENHO!"
E PEGOU UMA PEDRA, COLOCOU NO BODOQUE, MIROU BEM O PASSARINHO. QUANDO ELE IA ATIRAR, O PASSARINHO CANTOU:
_NÃO ME MATE NÃO JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
MAS NÃO ADIANTOU, JOÃO JILÓ ATIROU E ACERTOU A CABECINHA DO PASSARINHO, QUE CAIU NO CHÃO COM AS PERNINHAS PRA CIMA.
ENTÃO, ELE PEGOU O PASSARINHO, COLOCOU DENTRO DA SACOLINHA E FOI PARA CASA. QUANDO CHEGOU EM CASA, FOI DIRETO PARA COZINHA. COMEÇOU A DEPENAR O PASSARINHO, QUANDO ELE CANTOU:
_NÃO ME DEPENE NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PARA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
E ADIANTOU? NÃO. AÍ QUE JOÃO JILÓ TIROU MESMO AS PENINHAS DO PASSARINHO. QUANDO O PASSARINHO FICOU TODO PELADINHO, JOÃO JILÓ ACENDEU O FOGO E JÁ IA SAPECÁ-LO, MAS ELE COMEÇOU A CANTAR:
_ NÃO ME SAPEQUE, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
JOÃO JILÓ NEM LIGOU! SAPECOU O PASSARINHO NO FOGO. DEPOIS, LEVOU O COIUTADINHO PARA A PIA, PEGOU UMA FACA ENORME PARA PARTIR O PASSARINHO, MAS ELE CANTOU:
_ NÃO ME PARTA, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE PARTIU O PASSARINHO ASSIM MESMO E O LAVOU BEM LAVADINHO. QUANDO ELE IA TEMPERAR O BICHINHO, ELE CANTOU:
_ NÃO ME TEMPERE NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
DEPOIS, JOÃO JILÓ, PEGOU UMA PANELA, COLOCOU ÓLEO, PÓS PARA ESQUENTAR, MAS, QUANDO IA FRITAR O PASSARINHO, ELE CANTOU:
_NÃO ME FRITA NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE FRITOU O PASSARINHO. PEGOU UM PRATO, E, QUANDO IA COMÊ-LO, O PASSARINHO CANTOU:
_ NÃO ME COMA NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE COMEU O PASSARINHO TODINHO DE REPENTE, A BARRIGA DE JOÃO JILÓ COMEÇOU A INCHAR... A INCHAR... E ELE OUVIU UMA VOZ VINDA LÁ DE DENTRO:
_ EU QUERO SAIR DAQUI, JOÃO JILÓ.
E JOÃO JILÓ RESPONDEU:
_ ENTÃO, SAIA PELO NARIZ!
E O PASSARINHO:
_ NO NARIZ TE MELECA.
E JOÃO JILÓ:
_ ENTÃO, SAIA PELO OUVIDO.
E O PASSARINHO:
_ NO OUVIDO TEM MUITA CERA.
E JOÃO JILÓ:
_ ENTÃO SAIA PELA BOCA.
E O PASSARINHO:
_ NA BOCA TEM SALIVA.
E A BARRIGA DE JOÃO JILÓ FOI INCHANDO, FOI INCHANDO, FOI INCHANDO E... BUM! EXPLODIU!
O PASSARINHO SAIU VOANDO CONTENTE E CANTANDO:
_ EU SOBREVIVI, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
JOÃO JILÓ FICOU ´LÁ COM A BARRIGA TODA ABERTA. TIVERAM DE CHANAR O MÉDICO, QUE COSTUROU A BARRIGA DAQUELE MENINO TEIMOSO.
JOÃO JILÓ APRENDEU A LIÇÃO. NUNCA MAIS DESOBEDECEU À SUA MÃE NEM CAÇOU PASSARINHO!
MORAL DA HISTÓRIA: A NATUREZA SEMPRE CASTIGA DE ALGUM JEITO. E QUEM QUISER QUE LEMBRE OUTRA!
Gostou da história?
Baixe o vídeo do João Jiló em: http://www.overmundo.com.br/banco/contacao-de-historias-joao-jilo-de-jose-mauro-brant
Incentive a cultura , através da Literatura. Adriana
_ MÃE, HOJE EU ACORDEI COM UMA VONTADE GRANDE DE CAÇAR PASSARINHO, EU VOU SAIR E SÓ VOLTO QUANDO CONSEGUIR PEGAR UM BEM BONITO, GORDINHO E QUE DÊ PARA FAZER UM ENSOPADO BEM GOSTOSO, VIU?
A MÃE DE JÃO JILÓ LHE PEDIU:
_ MAS, MEU FILHO, EU JÁ CANSEI DE LHE FALAR QUE NÃO SE DEVE CAÇAR PASSARINHO! OLHE, A NATUREZA É MUITO BOA, MAS, QUANDO NÓS A MALTRATAMOS, ELA NOS CASTIGA. CUIDADO, JOÃO. FIQUE AQUI. DEIXE DE SER TEIMOSO!
MAS JOÃO JÁ ESTAVA RESOLVIDO. PEGOU SEU BODOQUE E SAIU CALADINHO. QUANDO CHEGOU A FLORESTA, LOGO ELE VIU UM PASSARINHO ESTRANHO. MUITO DIFERENTE MESMO. UM POUCO MAIOR QUE OS OUTROS PASSARINHOS E TODO COLORIDO. JOÃO PENSOU ALTO:
"QUE SORTE EU TENHO!"
E PEGOU UMA PEDRA, COLOCOU NO BODOQUE, MIROU BEM O PASSARINHO. QUANDO ELE IA ATIRAR, O PASSARINHO CANTOU:
_NÃO ME MATE NÃO JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
MAS NÃO ADIANTOU, JOÃO JILÓ ATIROU E ACERTOU A CABECINHA DO PASSARINHO, QUE CAIU NO CHÃO COM AS PERNINHAS PRA CIMA.
ENTÃO, ELE PEGOU O PASSARINHO, COLOCOU DENTRO DA SACOLINHA E FOI PARA CASA. QUANDO CHEGOU EM CASA, FOI DIRETO PARA COZINHA. COMEÇOU A DEPENAR O PASSARINHO, QUANDO ELE CANTOU:
_NÃO ME DEPENE NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PARA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
E ADIANTOU? NÃO. AÍ QUE JOÃO JILÓ TIROU MESMO AS PENINHAS DO PASSARINHO. QUANDO O PASSARINHO FICOU TODO PELADINHO, JOÃO JILÓ ACENDEU O FOGO E JÁ IA SAPECÁ-LO, MAS ELE COMEÇOU A CANTAR:
_ NÃO ME SAPEQUE, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
JOÃO JILÓ NEM LIGOU! SAPECOU O PASSARINHO NO FOGO. DEPOIS, LEVOU O COIUTADINHO PARA A PIA, PEGOU UMA FACA ENORME PARA PARTIR O PASSARINHO, MAS ELE CANTOU:
_ NÃO ME PARTA, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE PARTIU O PASSARINHO ASSIM MESMO E O LAVOU BEM LAVADINHO. QUANDO ELE IA TEMPERAR O BICHINHO, ELE CANTOU:
_ NÃO ME TEMPERE NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
DEPOIS, JOÃO JILÓ, PEGOU UMA PANELA, COLOCOU ÓLEO, PÓS PARA ESQUENTAR, MAS, QUANDO IA FRITAR O PASSARINHO, ELE CANTOU:
_NÃO ME FRITA NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE FRITOU O PASSARINHO. PEGOU UM PRATO, E, QUANDO IA COMÊ-LO, O PASSARINHO CANTOU:
_ NÃO ME COMA NÃO, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
ELE COMEU O PASSARINHO TODINHO DE REPENTE, A BARRIGA DE JOÃO JILÓ COMEÇOU A INCHAR... A INCHAR... E ELE OUVIU UMA VOZ VINDA LÁ DE DENTRO:
_ EU QUERO SAIR DAQUI, JOÃO JILÓ.
E JOÃO JILÓ RESPONDEU:
_ ENTÃO, SAIA PELO NARIZ!
E O PASSARINHO:
_ NO NARIZ TE MELECA.
E JOÃO JILÓ:
_ ENTÃO, SAIA PELO OUVIDO.
E O PASSARINHO:
_ NO OUVIDO TEM MUITA CERA.
E JOÃO JILÓ:
_ ENTÃO SAIA PELA BOCA.
E O PASSARINHO:
_ NA BOCA TEM SALIVA.
E A BARRIGA DE JOÃO JILÓ FOI INCHANDO, FOI INCHANDO, FOI INCHANDO E... BUM! EXPLODIU!
O PASSARINHO SAIU VOANDO CONTENTE E CANTANDO:
_ EU SOBREVIVI, JOÃO JILÓ!
EU VIM PRA CANTAR, JOÃO JILÓ!
SOU BICHINHO DO MATO, JOÃO JILÓ!
PARA PIAR!
JOÃO JILÓ FICOU ´LÁ COM A BARRIGA TODA ABERTA. TIVERAM DE CHANAR O MÉDICO, QUE COSTUROU A BARRIGA DAQUELE MENINO TEIMOSO.
JOÃO JILÓ APRENDEU A LIÇÃO. NUNCA MAIS DESOBEDECEU À SUA MÃE NEM CAÇOU PASSARINHO!
MORAL DA HISTÓRIA: A NATUREZA SEMPRE CASTIGA DE ALGUM JEITO. E QUEM QUISER QUE LEMBRE OUTRA!
Gostou da história?
Baixe o vídeo do João Jiló em: http://www.overmundo.com.br/banco/contacao-de-historias-joao-jilo-de-jose-mauro-brant
Incentive a cultura , através da Literatura. Adriana
OPINIÕES DE ROBINSON
(Carlos Drummond de Andrade)
Robinson aproximou-se cautelosamente. Percebia-se que era um homem disposto a defender sua ilha deserta.
__ Naturalmente o senhor veio aqui para entrevistar-me. Quer conhecer minhas opiniões sobre o mundo do pós-guerra, a maneira de domesticar os alemães, a possibilidade de dar comida a toda a gente e outras utopias. Mas eu sou um homem sem opiniões. Tenho apenas meu machado e minha cabana. Entende?
__ Não, velho Robinson. Não vim perguntar-lhe nenhuma coisa. Apenas, cuidou-se de dedicar à literatura infantil o número de uma revista e eu me lembrei de procurá-lo, a você personagem típico dos livros infantis, para ouvi-lo discorrer sobre matéria tão complexa.
__ Não sou personagem de histórias infantis. Minha história não foi escrita para crianças.
__ Precisamente por isso escolhi você, meu caro amigo. Como se explica o fato de um livro escrito para adultos atingir a zona difícil das crianças e passar a ser considerado um livro feito para elas, e até mais compreendido por elas do que pela gente grande?
Robinson coçou a barba de uma exuberância vegetal. Mostrava-se embaraçado, mas estava antes envaidecido.
__ Então no Brasil também?...
__ Também no Brasil, pois não. A princípio nas velhas e ingênuas séries de quadros coloridos do Tico Tico a sua aventura foi contada às crianças brasileiras.(Chorei minha lágrima na semana em que você deixou a ilha) Depois vieram outras adaptações e resumos, antecipando a técnica moderna da condensação. Por último você foi apresentado aos nossos garotos pelo escritor Monteiro Lobato, um dos homens que mais fizeram pelas crianças brasileiras, contando-lhes histórias entre fantásticas e realistas, em que lhes ensinava de maneira pitoresca a ciência, a história, a geografia, os fenômenos da natureza.
__ Cortaram muito das minhas peripécias?
__ Muito. Mas era preciso, e todo o escritor já está habituado a essa operação. O essencial é que o personagem ficasse. E o personagem está vivo. Fizeram o mesmo com o Quixote.
__ Este cavalheiro é diferente – interrompeu Robinson agastado.__ Nada temos em comum. Trata-se de um sonhador, um lunático, ao passo que eu sempre fui um honrado comerciante (talvez mais comerciante que honrado) e sobretudo um espírito prático. Minha longa permanência na ilha que cultivei e colonizei não é uma aventura romântica. Não perdi o meu tempo construindo uma torre, mas aproveitei-o fazendo uma cabana fortificada; e não escrevi versos à maneira dos jovens poetas puros, em matéria de escrita, limitava-me a dar talhos na madeira, para indicar os dias e controlar a passagem do tempo. Enfim, minha vida pode ser tida como exemplo de força prática, laboriosa e construtiva, nela se fundem capacidade inventiva, força de vontade e poder de adaptação.
__ Já sei prezado Robinson, e desculpe se lembrei à toa o nome de um ser tão diferente como o Quixote. O certo é que os meninos gostam de você, homem de vista curta e segura (isto não é xingamento), como o do fidalgo manchego que era a própria imaginação desenfreada. Meninos gostam de tudo e o apetite infantil em matéria de histórias e caracteres vai ao infinito.
__ Além do meu “caso” que é que eles lêem ultimamente por lá?
__ Tudo. E muitos lêem Robinson sem o saberem. Porque você tem mil nomes, fique ciente disto. Os escritores e desenhistas norte-americanos não pecam pelo excesso de espírito criador, e muitas vezes, com feições e rótulos diversos, fazem de você ou de outros personagens clássicos o objeto de suas histórias aparentemente novas. Essas histórias, como tantas outras mercadorias padronizadas, são despachadas para o mundo inteiro e aparecem simultaneamente nos jornais e revistas de toda a parte. Sua receita de viver numa ilha deserta tem sido muito explorada.
__ Sei disso. Recebo as Seleções e ouço o aviso aos navegantes... Hoje em dia, isso de ilha deserta é conversa fiada.
__É mesmo, velho Robinson e as crianças também o sabem. As crianças envelheceram terrivelmente nos últimos tempos. O cinema lhes trouxe uma soma brutal de conhecimentos. O rádio também. Já não falo das crianças dos países onde se desenvolvem operações militares – essas aprenderam demais. Refiro-me às crianças dos países não invadidos, nem bombardeados, das crianças mais felizes e protegidas. Amadureceram muito. Há mesmo quem receie que os contos maravilhosos já não seduzam os meninos mais tenros, a menos que esses contos também se renovem e, por exemplo, exibam uma moralidade mais direta e cortante. Na opinião dessas pessoas, as fábulas estão desmoralizadas. A figura do lobo não interessa; um fascista impressiona muito mais. E as fadas teriam perdido o prestígio, depois que surgiram os pára-quedistas.
__ Afinal, o senhor está entrevistando ou sendo entrevistado? – estranhou Robinson.
__ Tem razão. Vim aqui para pedir-lhe que me ajude a compreender o mistério da leitura – ou um aspecto dele. As crianças lêem histórias para gente grande. Os homens lêem contos de Andersen e Perrault. Um conto como “O príncipe feliz” de Oscar Wilde, não se sabe se foi composto para homens ou crianças – todos o adoram. Que é, afinal, literatura infantil?
__ Meu filho – respondeu Robinson gravemente, depois de um minuto de reflexão. __ O problema é estranho a minhas cogitações habituais, mas é possível examiná-lo à luz da natureza humana. A literatura infantil é talvez uma invenção dos livreiros. Quem sabe?
__ Mas os especialistas...
__ Deixe em paz os especialistas. Não é fora da história do comércio ou da sociedade que um gosto ou uma tendência sejam impostos pelo produtor. O uso da gravata nos países ocidentais talvez não tenha outra explicação senão a de que foi estabelecido pelos fabricantes de gravatas. Literatura é uma só, e não parece razoável que se divida em seções correspondentes às fases do crescimento físico e mental do homem.
__ Entretanto – arrisquei – certa maneira de contar...
__ Dirige-se de preferência ao público infantil, não é? Mas essa maneira não basta para constituir uma nova forma de literatura, nem mesmo um novo gênero. Dentro da “literatura adulta”, se é que vocês a chamam assim, cabem todas as maneiras, formas e gêneros. E a redução microscópica de um gênero é ainda um gênero. “Infantil”, geralmente é o autor da história em si. O que há de gravidade e consciência das coisas no espírito da criança escapa, geralmente, a esses escritores especializados em livros para crianças. Como se a criança fosse um ser à parte, que se transforme visceralmente ao crescer.
E o homem positivo continuou:
__ Não há escritores para homens e escritores para meninos. Há somente bons e maus escritores. Dentro da categoria dos bons uns são particularmente dotados para a representação de pessoas, coisas e fatos, reais ou imaginários. Esses criarão histórias e personagens que darão a volta ao mundo, fascinarão velhos e moços, mulheres e homens, de todas as profissões, e serão sempre vivos. Não têm a preocupação de uma clientela, de uma classe ou de uma zona de influência. São os escritores propriamente ditos. Os outros são os ruins – não interessam.
E depois:
__ Afinal, e sumariamente, a chamada literatura infantil tem seu principal celeiro no folclore. Mas, não é o folclore universal um fornecedor de motivos para toda a literatura? O folclore, simplesmente, seria insuficiente para individualizar essa pretensa literatura pré-púbere. Outro elemento de caracterização seria o seu duplo objetivo de recreação e educação (não falo de propaganda, que já é um desvio).Ora, aqueles são objetivos que podem coincidir com os da leitura. É preciso divertir as crianças, como também é preciso ensinar-lhes matemática elementar, mas não vejo em que isto envolva preocupação literária, como não há literatura no ato de cantar para que o filho adormeça ou no de substituir-lhe os cueiros molhados...
__ Mas há vida, Robinson ilustre, há vida!
__ E a vida não é uma só, sem embargo das diferenças biológicas?
Fugi. Seria Robinson um conferencista recalcado?
Robinson aproximou-se cautelosamente. Percebia-se que era um homem disposto a defender sua ilha deserta.
__ Naturalmente o senhor veio aqui para entrevistar-me. Quer conhecer minhas opiniões sobre o mundo do pós-guerra, a maneira de domesticar os alemães, a possibilidade de dar comida a toda a gente e outras utopias. Mas eu sou um homem sem opiniões. Tenho apenas meu machado e minha cabana. Entende?
__ Não, velho Robinson. Não vim perguntar-lhe nenhuma coisa. Apenas, cuidou-se de dedicar à literatura infantil o número de uma revista e eu me lembrei de procurá-lo, a você personagem típico dos livros infantis, para ouvi-lo discorrer sobre matéria tão complexa.
__ Não sou personagem de histórias infantis. Minha história não foi escrita para crianças.
__ Precisamente por isso escolhi você, meu caro amigo. Como se explica o fato de um livro escrito para adultos atingir a zona difícil das crianças e passar a ser considerado um livro feito para elas, e até mais compreendido por elas do que pela gente grande?
Robinson coçou a barba de uma exuberância vegetal. Mostrava-se embaraçado, mas estava antes envaidecido.
__ Então no Brasil também?...
__ Também no Brasil, pois não. A princípio nas velhas e ingênuas séries de quadros coloridos do Tico Tico a sua aventura foi contada às crianças brasileiras.(Chorei minha lágrima na semana em que você deixou a ilha) Depois vieram outras adaptações e resumos, antecipando a técnica moderna da condensação. Por último você foi apresentado aos nossos garotos pelo escritor Monteiro Lobato, um dos homens que mais fizeram pelas crianças brasileiras, contando-lhes histórias entre fantásticas e realistas, em que lhes ensinava de maneira pitoresca a ciência, a história, a geografia, os fenômenos da natureza.
__ Cortaram muito das minhas peripécias?
__ Muito. Mas era preciso, e todo o escritor já está habituado a essa operação. O essencial é que o personagem ficasse. E o personagem está vivo. Fizeram o mesmo com o Quixote.
__ Este cavalheiro é diferente – interrompeu Robinson agastado.__ Nada temos em comum. Trata-se de um sonhador, um lunático, ao passo que eu sempre fui um honrado comerciante (talvez mais comerciante que honrado) e sobretudo um espírito prático. Minha longa permanência na ilha que cultivei e colonizei não é uma aventura romântica. Não perdi o meu tempo construindo uma torre, mas aproveitei-o fazendo uma cabana fortificada; e não escrevi versos à maneira dos jovens poetas puros, em matéria de escrita, limitava-me a dar talhos na madeira, para indicar os dias e controlar a passagem do tempo. Enfim, minha vida pode ser tida como exemplo de força prática, laboriosa e construtiva, nela se fundem capacidade inventiva, força de vontade e poder de adaptação.
__ Já sei prezado Robinson, e desculpe se lembrei à toa o nome de um ser tão diferente como o Quixote. O certo é que os meninos gostam de você, homem de vista curta e segura (isto não é xingamento), como o do fidalgo manchego que era a própria imaginação desenfreada. Meninos gostam de tudo e o apetite infantil em matéria de histórias e caracteres vai ao infinito.
__ Além do meu “caso” que é que eles lêem ultimamente por lá?
__ Tudo. E muitos lêem Robinson sem o saberem. Porque você tem mil nomes, fique ciente disto. Os escritores e desenhistas norte-americanos não pecam pelo excesso de espírito criador, e muitas vezes, com feições e rótulos diversos, fazem de você ou de outros personagens clássicos o objeto de suas histórias aparentemente novas. Essas histórias, como tantas outras mercadorias padronizadas, são despachadas para o mundo inteiro e aparecem simultaneamente nos jornais e revistas de toda a parte. Sua receita de viver numa ilha deserta tem sido muito explorada.
__ Sei disso. Recebo as Seleções e ouço o aviso aos navegantes... Hoje em dia, isso de ilha deserta é conversa fiada.
__É mesmo, velho Robinson e as crianças também o sabem. As crianças envelheceram terrivelmente nos últimos tempos. O cinema lhes trouxe uma soma brutal de conhecimentos. O rádio também. Já não falo das crianças dos países onde se desenvolvem operações militares – essas aprenderam demais. Refiro-me às crianças dos países não invadidos, nem bombardeados, das crianças mais felizes e protegidas. Amadureceram muito. Há mesmo quem receie que os contos maravilhosos já não seduzam os meninos mais tenros, a menos que esses contos também se renovem e, por exemplo, exibam uma moralidade mais direta e cortante. Na opinião dessas pessoas, as fábulas estão desmoralizadas. A figura do lobo não interessa; um fascista impressiona muito mais. E as fadas teriam perdido o prestígio, depois que surgiram os pára-quedistas.
__ Afinal, o senhor está entrevistando ou sendo entrevistado? – estranhou Robinson.
__ Tem razão. Vim aqui para pedir-lhe que me ajude a compreender o mistério da leitura – ou um aspecto dele. As crianças lêem histórias para gente grande. Os homens lêem contos de Andersen e Perrault. Um conto como “O príncipe feliz” de Oscar Wilde, não se sabe se foi composto para homens ou crianças – todos o adoram. Que é, afinal, literatura infantil?
__ Meu filho – respondeu Robinson gravemente, depois de um minuto de reflexão. __ O problema é estranho a minhas cogitações habituais, mas é possível examiná-lo à luz da natureza humana. A literatura infantil é talvez uma invenção dos livreiros. Quem sabe?
__ Mas os especialistas...
__ Deixe em paz os especialistas. Não é fora da história do comércio ou da sociedade que um gosto ou uma tendência sejam impostos pelo produtor. O uso da gravata nos países ocidentais talvez não tenha outra explicação senão a de que foi estabelecido pelos fabricantes de gravatas. Literatura é uma só, e não parece razoável que se divida em seções correspondentes às fases do crescimento físico e mental do homem.
__ Entretanto – arrisquei – certa maneira de contar...
__ Dirige-se de preferência ao público infantil, não é? Mas essa maneira não basta para constituir uma nova forma de literatura, nem mesmo um novo gênero. Dentro da “literatura adulta”, se é que vocês a chamam assim, cabem todas as maneiras, formas e gêneros. E a redução microscópica de um gênero é ainda um gênero. “Infantil”, geralmente é o autor da história em si. O que há de gravidade e consciência das coisas no espírito da criança escapa, geralmente, a esses escritores especializados em livros para crianças. Como se a criança fosse um ser à parte, que se transforme visceralmente ao crescer.
E o homem positivo continuou:
__ Não há escritores para homens e escritores para meninos. Há somente bons e maus escritores. Dentro da categoria dos bons uns são particularmente dotados para a representação de pessoas, coisas e fatos, reais ou imaginários. Esses criarão histórias e personagens que darão a volta ao mundo, fascinarão velhos e moços, mulheres e homens, de todas as profissões, e serão sempre vivos. Não têm a preocupação de uma clientela, de uma classe ou de uma zona de influência. São os escritores propriamente ditos. Os outros são os ruins – não interessam.
E depois:
__ Afinal, e sumariamente, a chamada literatura infantil tem seu principal celeiro no folclore. Mas, não é o folclore universal um fornecedor de motivos para toda a literatura? O folclore, simplesmente, seria insuficiente para individualizar essa pretensa literatura pré-púbere. Outro elemento de caracterização seria o seu duplo objetivo de recreação e educação (não falo de propaganda, que já é um desvio).Ora, aqueles são objetivos que podem coincidir com os da leitura. É preciso divertir as crianças, como também é preciso ensinar-lhes matemática elementar, mas não vejo em que isto envolva preocupação literária, como não há literatura no ato de cantar para que o filho adormeça ou no de substituir-lhe os cueiros molhados...
__ Mas há vida, Robinson ilustre, há vida!
__ E a vida não é uma só, sem embargo das diferenças biológicas?
Fugi. Seria Robinson um conferencista recalcado?
CAUSOS
Nas fogueiras de Paysandú, Mellado Iturria conta causos. Conta acontecidos. Os acontecidos aconteceram alguma vez, ou quase aconteceram, ou não aconteceram nunca, mas têm uma coisa de bom: acontecem cada vez que são contados. Este é o triste causo do bagrezinho do arroio Negro.
Tinha bigodes de arame farpado, era vesgo e de olhos saltados. Nunca Mellado tinha visto um peixe tão feio. O bagre vinha grudado em seus calcanhares desde a beira do arroio, e Mellado não conseguia espantá-lo. Quando chegou no casario, com o bagre feito sombra, já tinha se resignado.
Com o tempo, foi sentindo carinho pelo peixe. Mellado nunca tinha tido um amigo sem pernas. Desde o amanhecer o bagre o acompanhava para ordenar e percorrer campo. Ao cair da tarde, tomavam chimarrão juntos; e o bagre escutava suas confidências. Os cachorros, enciumados, olhavam o bagre com rancor; a cozinheira, com más intenções. Mellado pensou em dar um nome para o peixe, para ter como chamá-lo e para fazer-se respeitar, mas não conhecia nenhum nome de peixe, e batizá-lo de Sinforoso ou Hermenegildo poderia desagradar a Deus.
Estava sempre de olho nele. O bagre tinha uma notória tendência às diabruras. Aproveitava qualquer descuido e ia espantar as galinhas ou provocar os cachorros: __ Comporte-se – dizia Mellado ao bagre.
Certa manhã de muito calor, quando as lagartixas andavam de sombrinha e o bagrezinho se abanava furiosamente com as barbatanas, Mellado teve a idéia fatal: __ Vamos tomar banho no arroio – propôs.Foram os dois. E o bagre se afogou. GALEANO, Eduardo. O Livro dos Abraços. Porto Alegre: L & PM, 1995.
AGORA NÃO, BERNARDO!
__ Oi, pai – disse o Bernardo. __ Agora não, Bernardo – disse o pai.
__ Oi, mãe – disse o Bernardo.__ Agora não, Bernardo – disse a mãe.
__ Tem um monstro no jardim e ele vai me devorar – disse o Bernardo.
__ Agora não, Bernardo – disse a mãe. Bernardo foi para o jardim. __ Oi, monstro – ele disse para o monstro. O monstro devorou o Bernardo inteirinho, pedacinho por pedacinho. Então o monstro entrou na casa. __ RUAUR – fez o monstro, por trás da mãe do Bernardo.__ Agora não, Bernardo – disse a mãe do Bernardo. O monstro mordeu o pai do Bernardo. __ Agora não, Bernardo – disse o pai do Bernardo. __ Seu jantar está pronto – disse a mãe do Bernardo.
E ela pôs o jantar na frente da televisão. O monstro jantou. Depois ele viu televisão, leu uma revistinha do Bernardo e quebrou um brinquedo dele. O monstro subiu para o quarto.
__ Mas eu sou um monstro – disse o monstro. __ Agora não, Bernardo – disse a mãe do Bernardo.
MCKEE, David. Agora não, Bernardo! São Paulo: Martins Fontes, 1994.
O PATINHO REALMENTE FEIO
Era uma vez uma mamãe pata e um papai pato que tinham sete bebês patinhos. Seis eram patinhos normais. O sétimo, porém, era um patinho realmente feio. Todo mundo dizia: “Mas que bando de patinhos tão bonitinhos... Todos, menos aquele ali. Puxa, mas como ele é feio!”
O patinho realmente feio ouvia o que as pessoas diziam, mas ele nem ligava. Sabia que um dia iria crescer e provavelmente virar um cisne, muito maior e muito mais bonito do que qualquer ave do lago.
Bem, só que no fim ele era apenas um patinho realmente feio. E, quando cresceu, tornou-se apenas um pato grande realmente muito feio. FIM.
SCIESZKA, Jon. O patinho realmente feio e outras histórias malucas. São Paulo: Cia.das Letrinhas, 1997.
FITA VERDE NO CABELO
Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.
Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou. A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
ROSA, João Guimarães. Fita Verde no Cabelo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Literatura Afrobrasileira
Ouvimos muitas histórias durante a nossa infância, mas na maioria delas quase não vimos como heróis principais a figura do negro.
Atualmente já temos a nossa disposição, diversos livros infanto-juvenis que resgatam a cultura afrodescendente.
Em 2003, foi decretada a Lei Federal n.º 10.639, que mudou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), ao estabelecer a obrigatoriedade do ensino e transmissão de cultura africana e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino públicos e privados de todo o País.
Temos certeza que nossas crianças vão apreciar esse tipo de produção literária e os porfessores terão em suas mãos temas relevantes para trabalharem as questões diverisifcadas.
Aqui deixo algumas dessas indicações.
Confira algumas delas!
Atualmente já temos a nossa disposição, diversos livros infanto-juvenis que resgatam a cultura afrodescendente.
Em 2003, foi decretada a Lei Federal n.º 10.639, que mudou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), ao estabelecer a obrigatoriedade do ensino e transmissão de cultura africana e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino públicos e privados de todo o País.
Temos certeza que nossas crianças vão apreciar esse tipo de produção literária e os porfessores terão em suas mãos temas relevantes para trabalharem as questões diverisifcadas.
Aqui deixo algumas dessas indicações.
Confira algumas delas!
Aproveitem a dica e conte essas histórias maravilhosas para os seus alunos.
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